As linhas tortas
De volta às análises esportivas que só acontecem de 4 em 4 anos (mas com uma assertividade surpreendente)
Querem análise tática de graça? Vambora.
Esquece "futebol posicional", "relacional", essas merdas todas. O que tá pegando pesado nessa Copa é a tal da linha. Se você assiste a Copa por aquele canalzinho de YouTube elevado a canal de TV, por falta de opção ou masoquismo, já deve ter ouvido quinhentas vezes; “linha baixa", “linha alta", “quebrar as linhas”.
Parece que estamos vendo uma aula de crochê. Mas é futebol.
As tais das linhas, popularizadas desde meados da década passada por Guardiola e afins (no terrível City), representam um ponto de inflexão na lógica da marcação. É evidente que não inventaram isso ontem, mas é olhando para o fundamento das linhas que conseguimos entender algumas “zebras” e, inclusive, o grande favoritismo da França nessa Copa. Vocês já devem ter percebido que alguns times, em geral considerados favoritos, não têm conseguido jogar.
O exemplo claro disso foi a Espanha contra a “zebra” Cabo Verde, no horrível empate em 0 a 0 da 1ª fase. O “ferrolho africano” da pequena ilha foi construído pela marcação em linha, reforçada pela pressão sobre a posse de bola nos meias com dois, ou até três marcadores. A imagem é clara.

Difícil “furar” as linhas quando os meias-armadores não tem muito tempo para trabalhar a bola, aguardando a movimentação e infiltração dos atacantes. Algo parecido com isso foi feito pelo Japão contra o Brasil. Todo meia brasileiro que se aproximava da área ganhava de presente uma família de japoneses dobrando a marcação. Sobre Vini Jr., a pressão era triplicada. O lance do gol da virada brasileira representa um dos poucos momentos do jogo em que dá pra ver o Vini livre na tela. No início da jogada ele atrai a marcação do lateral Sugawara (ao lado de Martinelli na grande área), que depois corre para tentar fechar a linha na área novamente. Foi assim que, já cercado por 2 japoneses, com um deles pronto para dar o bote, Bruno Guimarães conseguiu o passe que achou Martinelli enfiado entre as linhas.

O ponto aí é que a última linha pode ser intransponível. Mas se, e somente se, a defesa conseguir conciliá-la com o “trancamento” por pressão das fontes atacantes de passe. O Japão fez isso muito bem. Cabo Verde, nem se fala. “Compactando os blocos baixos", como os comentaristas de canal de streaming andam definindo – o que, traduzindo para os termos deste texto, significa linhas mais recuadas na intenção de atrair o time atacante para a arapuca do “ferrolho”. Isso só pode funcionar se as linhas forem reforçadas pela marcação por pressão nos armadores adversários. É bem fácil ver quem não fez isso até aqui na Copa: os times europeus que, ironicamente, abraçam a tática das linhas defensivas de forma rigorosa.
Marcando apenas em linhas, elas podem subir e descer acompanhando os movimentos do ataque, como ondas numa praia. Ou melhor, como um time de totó. Foi exatamente isso que a Suécia pareceu no jogo da 2ª fase contra a França: um imóvel, rígido e minúsculo time de totó. Jogando contra um time que tem pelo menos 4 jogadores capazes de enfiadas de bola diferenciadas e penetração no 1 a 1, a Suécia não ofereceu combates individuais à altura, preferindo subir e descer com linhas, tal e qual um verdadeiro … time de totó.
É bem verdade que o 1º gol da França teve que sair dos pés de Mbappé furando a defesa sueca no drible. Mas, depois disso, foi relativamente fácil “quebrar as linhas". Bastou explorar os espaços que elas mesmas abrem.

Além de ter um time privilegiado tecnicamente, a França foi beneficiada por aquilo que podemos chamar de “linhas burras". E não só nesse jogo. Resta entender porque as defesas de Suécia, Noruega e Iraque não acharam que precisavam botar jogadores pra tentar dar o bote no Mbappé. Seja como for, a lógica das linhas tem explicado diversas coisas nesta Copa do Mundo. Inclusive como ela tem sido a “copa dos craques”. Uma da formas de quebrar linhas é pelo talento individual. Sem marcações dobradas, as equipes (em especial as europeias) têm sofrido com os dribles e arrancadas de Mbappé, Vini e Messi.
E claro que Argentina e França, pela qualidade de seus meias, movimentação e tino ofensivo, têm sido amplamente aclamadas como favoritas. Só que tem como pará-las. E não é através das linhas. A melhor lição que os pardais do “futebol moderno” podem aprender nessa Copa até aqui vem de baixo da linha do Equador. É o Paraguai (para o que? Paraguai). Tacaram um foda-se para as linhas. Entortaram-nas. Botaram uma marcação individual para cima da Alemanha. E foi assim que um gênio como Galarza (ironia) botou Musiala no bolso.

É assim então que o Paraguai (ou qualquer outro time) vai ganhar da França? Não sei. A melhor estratégia contra os franceses talvez seja sequestrar os 11 titulares e só soltá-los depois do hexa. Mas o desenho tático das equipes na defesa, mais do que no ataque, é o que tem explicado tática e objetivamente a Copa do Mundo até aqui. Os times europeus, que outrora definiam-se pelas marcações individuais, agora apoiam-se em uma estratégia que tenta conciliar marcação por linhas e zonas, desastrosamente abrindo espaços para os adversários – vejam como Enciso marca de cabeça para o Paraguai contra a Alemanha.
O Enciso. De cabeça. Para o Paraguai. Contra a Alemanha.
CQD.
É claro que toda análise tática, em Copa do Mundo, cai por terra na hora que o improvável entra em campo. E já fiz minhas previsões malucas (algumas já destroçadas) e revelações místicas neste outro texto. Agora resta saber se nossa mística vai prevalecer.
Porque, quando falamos de “função tática”, “linhas” e “blocos", nossa verdadeira potência é entortar tudo.

